quinta-feira, 1 de setembro de 2016

Desabafos de Karleshakle Aniergu de Shapagiucar

As vezes fico pensando. Simplesmente pensando. Sobre e vida, sobre o mundo. Está desmoronando, mas é tão bonito! Fico imaginando o que será do mundo daqui a cem, duzentos anos. Pra ser sincero, imagino mesmo o que será do amanhã. Ah, a vida moderna. A eterna luta comigo mesmo para me preservar num estado presente. Sem passado, sem futuro, somente o presente. Quando consigo fazer isso vejo que os pássaros cantam, o sol brilha. O que quer que me aconteça num dia desses, como agora, escrevendo essas linhas, ou simplesmente olhando para essa mesa, me sinto feliz. Mas afinal, o que é a felicidade? Acho que é uma ideia velha. E a gente precisa sempre de algo mais novo. Mas quando tudo é velho, quando nada mudou? Serei eu o mesmo de sempre? Talvez um pouco pior aqui, melhor acolá. Mais preguiçoso, com certeza.

Como gente que sou, quero falar. Todos querem falar! Estamos sempre falando, falando....Estamos desde março falando, lendo e escrevendo. E digo: já é o bastante. Diante de tanto falatório, as vezes fico pensando. Só pensando. Entre um pensamento e outro, sempre vem a vodka. Me disseram que a bebida não combina comigo, com minha bela voz. Comecei a pensar em parar de beber, ficar sóbrio. Me parece uma boa ideia. Vou pensar sobre. Pensar? Que nada. Pronto, parei! Está decidido. Finalmente uma ação, uma atitude. Mas e a insônia, o que fazer com ela? Devo confessar. Confessar algo a mim mesmo. E pode ser apenas em pensamento. Eu passo as noites sentindo uma fúria insana por conta da vida que não vivi. O pouco que consigo pregar os olhos é domado por sonhos estranhos, metafóricos. Há metáforas que são mais reais do que gente que anda pelas ruas. Meu irmão, um cara culto, certa vez me disse que há imagens nos recantos de livros que vivem mais nitidamente que muito homem e muita mulher. Que há frases literárias que têm uma individualidade absolutamente humana. Seria eu um individuo feliz se não fosse um individuo, e sim uma frase literária? Talvez, talvez...Estou aqui pensando. Eu poderia ser palavras com absoluta exterioridade e profunda alma. Poderia ser usado em poesias, canções populares, romances. Pessoas importantes me usariam em seus trabalho! Ah, o trabalho. Sei que é preciso trabalhar, trabalhar. E isso nada tem a ver com frases e palavras. Mas pelo menos me coloca pensando na mesma coisa sempre, com veemência. Me esqueço das dores e dos amores. Mas quando volto a pensar na vida, logo me vem a pergunta de sempre: Por que não me concentrei em algo esplêndido? Por que? E por que estou bebendo agora, outra vez? Acho que a bebida me faz sentir que estou vivo. Ah, essa vodka, essa vida. As vezes fico pensando, só pensando...


Agora terminei. Estou em silêncio.



Desabafos de Karleshakle Aniergu de Shapagiucar

As vezes fico pensando. Simplesmente pensando. Sobre e vida, sobre o mundo. Está desmoronando, mas é tão bonito! Fico imaginando o que será do mundo daqui a cem, duzentos anos. Pra ser sincero, imagino mesmo o que será do amanhã. Ah, a vida moderna. A eterna luta comigo mesmo para me preservar num estado presente. Sem passado, sem futuro, somente o presente. Quando consigo fazer isso vejo que os pássaros cantam, o sol brilha. O que quer que me aconteça num dia desses, como agora, escrevendo essas linhas, ou simplesmente olhando para essa mesa, me sinto feliz. Mas afinal, o que é a felicidade? Acho que é uma ideia velha. E a gente precisa sempre de algo mais novo. Mas quando tudo é velho, quando nada mudou? Serei eu o mesmo de sempre? Talvez um pouco pior aqui, melhor acolá. Mais preguiçoso, com certeza.

Como gente que sou, quero falar. Todos querem falar! Estamos sempre falando, falando....Estamos desde março falando, lendo e escrevendo. E digo: já é o bastante. Diante de tanto falatório, as vezes fico pensando. Só pensando. Entre um pensamento e outro, sempre vem a vodka. Me disseram que a bebida não combina comigo, com minha bela voz. Comecei a pensar em parar de beber, ficar sóbrio. Me parece uma boa ideia. Vou pensar sobre. Pensar? Que nada. Pronto, parei! Está decidido. Finalmente uma ação, uma atitude. Mas e a insônia, o que fazer com ela? Devo confessar. Confessar algo a mim mesmo. E pode ser apenas em pensamento. Eu passo as noites sentindo uma fúria insana por conta da vida que não vivi. O pouco que consigo pregar os olhos é domado por sonhos estranhos, metafóricos. Há metáforas que são mais reais do que gente que anda pelas ruas. Meu irmão, um cara culto, certa vez me disse que há imagens nos recantos de livros que vivem mais nitidamente que muito homem e muita mulher. Que há frases literárias que têm uma individualidade absolutamente humana. Seria eu um individuo feliz se não fosse um individuo, e sim uma frase literária? Talvez, talvez...Estou aqui pensando. Eu poderia ser palavras com absoluta exterioridade e profunda alma. Poderia ser usado em poesias, canções populares, romances. Pessoas importantes me usariam em seus trabalho! Ah, o trabalho. Sei que é preciso trabalhar, trabalhar. E isso nada tem a ver com frases e palavras. Mas pelo menos me coloca pensando na mesma coisa sempre, com veemência. Me esqueço das dores e dos amores. Mas quando volto a pensar na vida, logo me vem a pergunta de sempre: Por que não me concentrei em algo esplêndido? Por que? E por que estou bebendo agora, outra vez? Acho que a bebida me faz sentir que estou vivo. Ah, essa vodka, essa vida. As vezes fico pensando, só pensando...


Agora terminei. Estou em silêncio.



quarta-feira, 26 de novembro de 2014

Quando 1 vale mais do que 4

Bater o Cruzeiro na final da Copa do Brasil representa a vitória daqueles que lutam com toda a raça pra vencer contra os que jogam com toda técnica (e sorte) pra ganhar. Tenho escutado a tradicional soberba azul dizendo “já temos 4 taças da Copa do Brasil”, como quem diz: “pouco me importa se o Cruzeiro perder”. É o tipo de comportamento que Freud explica. Pois eles dizem sorrindo. Mas o inconsciente  dessa torcida revela indivíduos cheios de taças, porém completamente vazios de amor. E isso entrega o comportamento cantado em coro pela torcida alvinegra: a famosa tremedeira. Sim, meu caro amigo. O Cruzeirense treme quando o Galo vai jogar. E não é de hoje. Fico imaginando conversas entre eles, se perguntando “como um time com tantas taças é capaz de tremer pro maior rival que não é tão “rico” assim?”. No fundo, tal sentimento não passa de uma admiração profunda. Não só por termos o mesmo nome e cores desde 1908. Eles simplesmente não entendem o porque o Atleticano se vangloria tanto de seus históricos times, não só do campeão de 71, mas do vice invicto de 77 (10 pts a frente do 2o ...), do assaltado Galo da libertadores de 81, do timaço de 87, entre outros. Também não entendem como a gente se lembra dos 28 gols do Guilherme em 99. Se perguntam como conseguimos ser o maior público do Brasil jogando a série B e por que eternizamos a camisa 12. Ficam indignados ao lembrarem que ficamos mais de 40 anos na fila dos grandes títulos, e mesmo assim seguimos lotamos os estádios. Ainda não entenderam o choro do Ronaldinho, um craque que tudo tinha, e foi às lágrimas ao vestir o manto alvinegro. Eles brigam entre si por não entenderem como conseguimos escrever histórias cinematográficas como a Libertadores 2013, e viradas épicas na Copa do Brasil 2014, capazes de embalar todo o país em torno do lema “eu acredito”.
 
Em meio a tantos questionamentos, os cruzeirenses tentam se lembrar do seu próprio time de 97. “quem era mesmo o lateral esquerdo?”. Silêncio. Olham entre si encabulados e tentam recordar mais uma vez. Mas só conseguem se lembrar do chute mascado de Elivélton e de algumas defesas do Dida contra o todo poderoso Sporting Cristal. A indignação aumenta quando eles voltam a questionar os mistérios alvinegros: “Por que somos uma torcida e eles ‘a massa’? Por que eles jogam com muita ‘raça e amor’ e nós vivemos ‘cheios de vaidade’?”.  A resposta é simples: O Cruzeiro é assim. Eles sempre andaram em estradas privatizadas, bem asfaltadas, com SOS e tudo mais. Nós dirigimos em ruas esburacadas, de terra vermelha e com cascalho solto. Jipe sem gasolina, com amortecedor quebrado e sem step. Eles ganham títulos nacionais com rodadas de antecedência, vencendo 3 pts do Goiás, do Paysandu no Mineirão.  Nós ficamos com o vice em 77,  invictos, depois de fechar a tabela com 10 pts à frente do segundo colocado. Em 97 eles foram na brisa da sorte com um limitadíssimo e esquecido time (qual era mesmo a dupla de zaga?), e nós tivemos que ir aos Deuses, fazer várias sessões de descarrego para exorcizar mil fantasmas e ganhar em 2013. E agora as histórias se cruzam, como naqueles épicos roteiros cinematográficos: enquanto um só começou a Copa nas semifinais, pois tinha treinado contra Santa Rita e ABC, o outro teve que, não só torcer contra o vento, mas evocar toda espécie de santo pra vencer épicas batalhas contra os grandes do Brasil. Daí você vai dizer que estou exagerando, pois a escolha das chaves foi por sorteio. Eu te digo que não! Se esse sorteio tivesse sido invertido, teria sido cambalacho, obra do STJD. Nosso Jipe foi feito pra andar em estrada de chão, passando forte em todos os buracos, sob tempestade e barro no para-brisa. As vezes acaba a gasolina, a bateria arria, e sabe-se lá como, ele continua acelerando, forte e vingador. Porque o Atlético é assim. É o espelho da nossa existência . É feito de choro e riso, céu e inferno, tristeza e alegria e, sobretudo, da morte e da vida.
 
No dia 26 de novembro de 2014, quando a taça estiver de posse do seu verdadeiro dono, tudo isso estará impresso nela. Daí o Cruzeirense terá mais um grande questionamento a fazer: “Como pode 1 taça valer mais do que 4????”. Haja análise. Essa nem Freud vai poder explicar.
  

terça-feira, 4 de novembro de 2014

O Crepúsculo e o Neném - Parte 2

O relógio já marcava 17h35 e nada de lágrimas. Não tinha choro, tão pouco o tradicional berreiro. Nem um pequeno sinal de resmungo para dar esperança. O Neném simplesmente vivia aquela tarde sem chorar. Deitado em seu berço, apenas observava o teto branco. A Mamãe estava preocupada. Pensou até em dar umas palmadinhas em seu bumbum para estimular o choro. Mas logo desistiu da estúpida ideia. O tempo passava, o sol já tinha se escondido, o crepúsculo vespertino estava em seu apogeu, e ela se perguntava: “será que ele não sente mais o crepúsculo? Ou isso era todo um papo furado da Senhora Que Não Fala?”. Pegou o telefone e discou para sua lista de pediatras. Aqueles mesmos que divergiam sobre as causas do tradicional berreiro, agora, milagrosamente, concordavam em tudo. A resposta era sempre a mesma: “não tem nada de errado com o seu Neném. Se ele não chora é porque está tudo bem!”. Ela então tinha dois fatos preocupantes: o primeiro, claro, a ausência do choro vespertino do Neném. O segundo, a convergência absoluta das respostas dos pediatras. Era uma unanimidade mais do que burra: bem suspeita. Como assim o Neném não chorou as 17h30? Estaria ele com fome? Teria ele não percebido o sol se pondo? Então chegou a noite absoluta e imponente, rompendo com qualquer tipo esperança. O Neném dormiu em seu horário de costume e a Mamãe ficou acordada durante toda a madrugada, completamente desolada.

Na manhã seguinte, ao ir à venda da esquina, percebeu uma certa inquietação na vizinhança. O assunto era a ausência do choro do Neném. Vizinhos, moradores que ela não conhecia e até mesmo o padeiro, a questionaram com veemência. Perguntavam se o Neném tinha viajado ou se ele havia chorado mais baixo. A Mamãe acabou por dizer a verdade: “ele simplesmente não berrou, não chorou, nenhuma lágrima sequer...”, respondia, com certo constrangimento. Logo a notícia se espalhou. E a expectativa para a tarde daquele dia só aumentava. Já em casa, a Mamãe tentava parecer calma. O Neném, por sua vez, seguia tranquilo sua vida de cidadão neném: acordou pela manhã, mamou, sorriu, choramingou, mamou de novo, sujou as fraldas, emitiu seu típicos sons pela boca, voltou a mamar, e assim por diante. O horário das 17h30 se aproximava. A Mamãe sentia apreensão. Sabia que o caso já era notícia em todo bairro. Começava a imaginar o que a vizinhança ia pensar se o Neném não voltasse a chorar. A tensão estava no ar. E assim que o relógio marcou 17h29, lá estava ela. De camarote. Sentada num banquinho, com os cotovelos nas pernas, apoiando o rosto nas duas palmas das mãos, com os olhos arregalados e bem focados no Neném, esperando o fenômeno começar. Já justificava em seus pensamentos “ontem passou desapercebido, né filho?! Hoje tudo vai correr bem!”. O Neném começou a mexer a boca, estremecer os lábios, endurecer o queixo...”isso meu, amor! Chora! Chora!”. E o que parecia certo, deu errado. O Neném esboçou o movimento do choro, mas acabou por abrir um belo de um bocejo. Isso mesmo. O Neném deu um grande bocejo, daqueles de fazer barulho no desfecho. E depois completou com um sorriso bem largo, de dar gosto! Então, repousou tranquilamente em uma serena expressão. “Meu Deus! Mais um dia...não é possível...”. Pensou a Mamãe, conferindo o relógio, checando o sol no horizonte, verificando a vizinhança no cantinho da janela, através das cortinas.

No dia seguinte, o caos na Vila estava instalado. Falha na entrega do pão, confusão no fechamento do comércio, trabalhadores vagando pelas ruas sem referência de horário e transeuntes desocupados por natureza, alimentavam as mais diversas fofocas. A vizinhança estava aguçada. Alguns diziam que a Mamãe nunca gostou do choro do Neném, que era tudo uma farsa, e o choro era devido às palmadas maternas, sempre as 17h30. Outros acreditavam que o Neném havia sido entregue a uma casa de adoção. Por fim, o boato que conquistou o coração da maioria dizia que Neném estava doente, sem forças para soltar o seu tradicional berro. Em meio a tanto falatório, nada fazia sentido para a Mamãe.

Após uma semana sem o berreiro, em um momento de lucidez, a Mamãe resolveu voltar no tempo em busca de uma resposta: por que nenhum médico conseguira diagnosticar seu choro além das explicações pediátricas convencionais? E por que agora todos dizem ser normal a falta do tal choro? Ela, então, começara a conquistar uma nova camada de conhecimento. Acabava de perceber algo muito valioso para uma mãe. Reconhecia que todos os médicos estudam muito, anos e anos de faculdade, especialização, doutorado, residência e etc. Sabem tudo que podem saber acerca do corpo humano. Mas tamanho é o foco na matéria, no concreto, que parecem ter se esquecido de algo mais importante: do espírito, da alma. Um corpo sem alma é apenas um corpo e nada mais. Agora ela sabe disso também. Da mesma forma que não existem corpos iguais, cada ser humano tem uma alma. Ela finalmente entendeu que os médicos se esforçam para entender nosso lado biológico, mas quem entende mesmo da alma dos nenés são as mães. Sim. As mamães sabem mais do que ninguém o que os corações de seus nenés dizem.

Enquanto realizava tais coisas, a sua casa virava a principal atração da Vila. Todas as manhãs ela recebia dezenas de centenas de manifestações de carinho: flores, cestas de café da manhã, cartas, orações e artigos religiosos. Peregrinos faziam vigília do lado de fora da casa. Vários deles, de joelhos na calçada de cimento, oravam pelo choro. Os moradores depositavam mamadeiras no jardim, com forma de oração. O jornal do bairro estava inquieto e fazia plantão por uma entrevista, ou uma simples declaração da Mamãe. E quando faltava 1 minuto para as 17h30, havia uma espécie de “coro da fé”, com contagem regressiva, em nome do choro, do berreiro.

Em meio à pressão de toda a Vila, a Mamãe já tinha certa consciência do caso. De tamanho amor e carinho, tinha conquistado acesso livre ao coração do seu Neném. De maneira extremamente sensitiva, compreendeu que o Neném já compreendia certas coisas. Entre elas, que o sol ia e vinha. Não sofria mais de crepúsculo vespertino porque já sentia, e admirava também, o crepúsculo matutino. Continuava a ser um Neném que vivia 100% o presente, mas já com certa ciência das coisas. O que o deixava ainda mais apto a aproveitar sua vida de neném.

Afim de dar um basta, no dia seguinte, as 17h29, a Mamãe foi para a porta para acabar com todo o tumulto que persistia. Colocou o Neném em um canguru, virado para frente, e apareceu repentinamente no meio da contagem regressiva. Todos se assustaram e pararam no ato. Flashes de fotografias e saudações se misturaram. A Mamãe, tranquila e serena, olhou nos olhos da multidão de disse, alto e em bom som: “Como podem ver, meu Neném está saudável. Agora ele não chora mais as 17h30. Ele boceja e sorri. Com muita alegria e silenciosamente.”. O Neném, esperto que é, confirmou a fala da mamãe com um belo e longo bocejo, seguido do grande sorriso. Após o ato, houve um silêncio intenso. Todos se mostraram espantados e, de certa forma, frustrados. A Mamãe voltou para sua casa e a multidão se dispersou sussurrando o fim da saga.


Com o Neném no colo, a Mamãe, mais aliviada, seguiu refletindo. O choro das 17h30 havia se transformado na razão de ser da Vila. E a ausência do mesmo, numa grande causa. Pela primeira vez na história da humanidade o sorriso de um neném causou tristeza e decepção. Talvez por que, no fundo, as pessoas saibam que o Neném está adquirindo consciência das coisas. O inconsciente coletivo sabe que, um dia, também tiveram sua verdade sacrificada para que pudesse existir a sociedade. Talvez elas encontraram no Neném uma verdade que há tempos lhes falta: a verdade de quem chora o por do sol, o fim de mais um dia, de quem adora a vida e sabe que ela é realmente única. A verdade de quem abre os olhos pela manhã e vê o dia como ele realmente é: único e inédito. Um dia todos da Vila foram assim. Há muito, muito tempo atrás. Quando eram nenés. E agora todos sabem que, um dia, o Neném que tanto os alegrou com seu choro, deixará de ser Neném para, enfim, ser humano. Gente grande na Vila...


quinta-feira, 30 de outubro de 2014

O Crepúsculo e o Neném

Quando o relógio apitava, as 17h30, ele abria o berreiro. Toda santa tarde o neném chorava muito. Meio sem explicação, pois mamara o dia todo, estava limpinho, com a fralda seca e com sorrisos diversos no rosto. Sua mamãe não compreendia o motivo. Era muito zelosa e conhecia cada dia mais a criança. Os médicos não conseguiam explicar o fenômeno: não era febre nem cólica, sono ou tão pouco fome. Os doutores se confundiam e contradiziam nas explicações. O Neném, por sua vez, seguia sua rotina. Dormia muito bem para uma criança de 3 meses. Praticamente toda a noite. Acordava cedo com o nascer do sol, mamava, brincava, cochilava, mamava de novo, tomava seu banho de sol diário, sorria, resmungava, emitia sons típicos com a boca, sujava fraldas, babava, mamava outra vez, etc etc e etc. Cumpria seu papel de cidadão neném. Mas quando o relógio marcava 17h30 era um Deus nos acuda. O bico pré choro se armava em sua face e o berro era intenso, a ser escutado por toda vizinhança. De tão forte e absoluto, o neném passou a ser conhecido em todo o bairro. Toda a Vila funcionava na expectativa de ouvir o seu berreiro. Era uma espécie de alarme das 5 e meia da tarde. Pautava o cotidiano das pessoas e também o funcionamento do comércio local. A fama do neném era tamanha que intrigava a vizinhança, mas também encantava a todos. Escutar o choro do neném era uma alívio, um sinal de que as coisas estavam bem. De que o dia ia acabar, que o pão da tarde seria entregue, que o vento continuaria soprando e que a vida seria levada adiante. 

Mas a Mamãe, zelosa que era, continuava mais intrigada do que encantada. Numa tarde sua campainha tocou. Era uma misteriosa moradora do bairro, conhecida por todos como a Senhora Que Não Falava. Tinha olhos bem azuis e longos cabelos brancos. A pele clara, porém bem corada pelo sol. Vestia sempre uma bata branca, impecável, e não dizia uma só palavra. Era tida por todos como muda e surda. A Mamãe, de dentro de casa, com a cabeça para a fora da porta, meio sem saber o que fazer, se falava ou fazia gestos, acabou por dizer um "boa tarde" meio sem jeito. "Em que posso ajudar?", completou. A Senhora permaneceu em silêncio, olhando fixamente para a Mamãe. Ela, por sua vez, consultou o relógio e olhou para trás. Constatou que já eram quase 5 e meia, a hora do berreiro. Ela precisava estar pronta para acudir o neném. Quando voltou o olhar para a senhora deu de cara com um suave sorriso. Então, após uma leve respiração, a Senhora Que Não Falava, falou: "Crepúsculo". A Mamãe nada entendeu. Ficou chocada e pensou freneticamente: "Então ela fala! Mas não era muda? E que diabos ela quer dizer com crepúsculo ao pé da minha porta?". A Senhora, gentilmente, continuou: "É o crepúsculo. Ele sofre de crepúsculo vespertino". "Você está falando do meu neném?" "Sim. O seu neném sofre de crepúsculo vespertino”, repetiu. Tudo parecia estranho para a Mamãe. A conversa não tinha pé nem cabeça. O horário do berreiro se aproximava. A Senhora Que Não Falava estava ali, na porta da sua casa, não só sorrindo, mas falando! Como assim? Ela não falava e agora está falando? Além do mais estava falando coisas sem sentido. Até onde ela sabia, não existia nenhuma doença com o nome de crepúsculo. Mas apesar de toda a angústia do momento, ela sentia uma energia boa vinda da Senhora e no fundo, uma esperança por uma explicação. Nenhum médico havia diagnosticado o berro do neném para além das teorias convencionais. E ela sentia ali uma chance de desvendar mistério. Num rompante, convidou a Senhora Q'
ue Não Fala para entrar e continuar a falar.

Ela se sentou calmamente com seu leve sorriso no rosto, e com a voz suave de quem fala apenas aquilo que é necessário ser dito, explicou para a Mamãe, prazerosamente, o que se passava com o seu neném. Disse que os nenés vivem imersos em um estado presente tão profundo que nós, adultos, desconhecemos há tempos. Pois já fomos domesticados a remoer o passado e nos desesperar pelo futuro. Disse também que o neném em questão era especial. Ele sentia o crepúsculo vespertino! Imerso na sua atualidade, não se conforma com o sol se pondo. Ainda não entende que a terra dá voltas, que o sol nasce e se põe, que o dia dá lugar para a noite e a noite para o dia. Quando o sol vai embora, o Neném sente como se o mundo estivesse tomando o que lhe pertence. "Sua alma sente o crepúsculo", disse com ternura e admiração. "O seu neném é de uma linhagem diferente. Tem um espírito muito belo. Ele é um filho do sol!". A Mamãe sorriu aliviada. Por mais pitoresca que parece toda a situação, finalmente ela tinha uma resposta para as coisas. Ela então olhou seu relógio e viu os ponteiros indicarem 17h30. O sol se posicionou no horizonte para descer e, lá do quarto, o neném chorou mais uma vez. O berreiro agora é recebido com alegria. Estava entendido que era a expressão de quem vivia cada instante como se fosse o último, cada dia, cada milésimo de segundo de sua existência era preciso e rico em vida. Suas caretas, sorrisos, olhares, mamadas, enfim, jamais aconteceriam de novo. O neném nasceu para viver o presente e ele simplesmente o fazia com maestria. Agora a Mamãe entendia. Entendia e sentia alegria por entender, mas ao mesmo tempo se perguntava, ainda timidamente, o porque ela, na sua própria vida, se alimentava do passado e pensava apenas no futuro. Esquecia o agora, o presente. Rapidamente lhe ocorreu que as pessoas passam a vida inteira pensando no que aconteceu, preocupadas com o que vai acontecer e se esquecendo do que se passa no agora. Foi acudir o Neném refletindo, iniciando uma nova etapa de compreensão. 

A Senhora Que Não Fala finalmente parou de falar, se despediu com um gracioso sorriso, e deixou a Mamãe com o berreiro do Neném. Mas dessa vez era diferente. Ela já sabia que, além de seu, ele também era um filho do Sol.




terça-feira, 7 de outubro de 2014

Menino a Bico de Pena

Por Clarice Lispector

Como conhecer jamais o menino? Para conhecê-lo tenho que esperar que ele se deteriore, e só então ele estará ao meu alcance. Lá está ele, um ponto no infinito. Ninguém conhecerá o hoje dele. Nem ele próprio. Quanto a mim, olho, e é inútil: não consigo entender coisa apenas atual, totalmente atual. O que conheço dele é a sua situação: o menino é aquele em quem acabaram de nascer os primeiros dentes e é o mesmo que será médico ou carpinteiro. Enquanto isso – lá está ele sentado no chão, de um real que tenho de chamar de vegetativo para poder entender. Trinta mil desses meninos sentados no chão, teriam eles a chance de construir um mundo outro, um que levasse em conta a memória da atualidade absoluta a que um dia já pertencemos? A união faria a força. Lá está ele sentado, iniciando tudo de novo mas para a própria proteção futura dele, sem nenhuma chance verdadeira de realmente iniciar. Não sei como desenhar o menino. Sei que é impossível desenhá-lo a carvão, pois até o bico de pena mancha o papel para além da finíssima linha de extrema atualidade em que ele vive. Um dia o domesticaremos em humano, e poderemos desenhá-lo. Pois assim fizemos conosco e com Deus. O próprio menino ajudará sua domesticação: ele é esforçado e coopera. Coopera sem saber que essa ajuda que lhe pedimos é para o seu auto-sacrifício. Ultimamente ele até tem treinado muito. E assim continuará progredindo até que, pouco a pouco – pela bondade necessária com que nos salvamos – ele passará do tempo atual ao tempo cotidiano, da meditação à expressão, da existência à vida. Fazendo o grande sacrifício de não ser louco. Eu não sou louco por solidariedade com os milhares de nós que, para construir o possível, também sacrificaram a verdade que seria uma loucura. Mas por enquanto ei-lo sentado no chão, imerso num vazio profundo.

Da cozinha a mãe se certifica: você está quietinho aí? Chamado ao trabalho, o menino ergue-se com dificuldade. Cambaleia sobre as pernas, com a atenção inteira para dentro: todo o seu equilíbrio é interno. Conseguido isso, agora a inteira atenção para fora: ele observa o que o ato de se erguer provocou. Pois levantar-se teve consequências e consequências: o chão move-se incerto, uma cadeira o supera, a parede o delimita. E na parede tem o retrato de O Menino. É difícil olhar para o retrato alto sem apoiar-se num móvel, isso ele ainda não treinou. Mas eis que sua própria dificuldade lhe serve de apoio: o que o mantém de pé é exatamente prender a atenção ao retrato alto, olhar para cima lhe serve de guindaste. Mas ele comete um erro: pestaneja. Ter pestanejado desliga-o por uma fração de segundo do retrato que o sustentava. O equilíbrio se desfaz – num único gesto total, ele cai sentado. Da boca entreaberta pelo esforço de vida a baba clara escorre e pinga no chão. Olha o pingo bem de perto, como a uma formiga. O braço ergue-se, avança em árduo mecanismo de etapas. E de súbito, como para prender um inefável, com inesperada violência ele achata a baba com a palma da mão. Pestaneja, espera. Finalmente, passado o tempo necessário que se tem de esperar pelas coisas, ele destampa cuidadosamente a mão e olha no assoalho o fruto da experiência. O chão está vazio. Em nova brusca etapa, olha a mão: o pingo de baba está, pois, colado na palma. Agora ele sabe disso também. Então, de olhos bem abertos, lambe a baba que pertence ao menino. Ele pensa bem alto: menino.
- Quem é que você está chamando? pergunta a mãe lá da cozinha. Com esforço e gentileza ele olha pela sala, procura quem a mãe diz que ele está chamando, vira-se e cai para trás. Enquanto chora, vê a sala entortada e refratada pelas lágrimas, o volume branco cresce até ele – mãe! absorve-o com braços fortes, e eis que o menino está bem no alto do ar, bem no quente e no bom. O teto está mais perto, agora; a mesa, embaixo. E, como ele não pode mais de cansaço, começa a revirar as pupilas até que estas vão mergulhando na linha de horizonte dos olhos. Fecha-os sobre a última imagem, as grades da cama. Adormece esgotado e sereno.
A água secou na boca. A mosca bate no vidro. O sono do menino é raiado de claridade e calor, o sono vibra no ar. Até que, em pesadelo súbito, uma das palavras que ele aprendeu lhe ocorre: ele estremece violentamente, abre os olhos. E para o seu terror vê apenas isto: o vazio quente e claro do ar, sem mãe. O que ele pensa estoura em choro pela casa toda. Enquanto chora, vai se reconhecendo, transformando-se naquele que a mãe reconhecerá. Quase desfalece em soluços, com urgência ele tem que se transformar numa coisa que pode ser vista e ouvida senão ele ficará só, tem que se transformar em compreensível senão ninguém o compreenderá, senão ninguém irá para o seu silêncio ninguém o conhece se ele não disser e contar, farei tudo o que for necessário para que eu seja dos outros e os outros sejam meus, pularei por cima de minha felicidade real que só me traria abandono, e serei popular, faço a barganha de ser amado, é inteiramente mágico chorar para ter em troca: mãe.
Até que o ruído familiar entra pela porta e o menino, mudo de interesse pelo que o poder de um menino provoca, para de chorar: mãe. Mãe é: não morrer. E sua segurança é saber que tem um mundo para trair e vender, e que o venderá.
É mãe, sim é mãe com fralda na mão. A partir de ver a fralda, ele recomeça a chorar.
- Pois se você está todo molhado!
A notícia o espanta, sua curiosidade recomeça, mas agora uma curiosidade confortável e garantida. Olha com cegueira o próprio molhado, em nova etapa olha a mãe. Mas de repente se retesa e escuta com o corpo todo, o coração batendo pesado na barriga: fonfom!, reconhece ele de repente num grito de vitória e terror – o menino acaba de reconhecer!

- Isso mesmo! diz a mãe com orgulho, isso mesmo, meu amor, é fonfom que passou agora pela rua, vou contar para o papai que você já aprendeu, é assim mesmo que se diz: fonfom, meu amor! diz a mãe puxando-o de baixo para cima e depois de cima para baixo, levantando-o pelas pernas, inclinando-o para trás, puxando-o de novo de baixo para cima. Em todas as posições o menino conserva os olhos bem abertos. Secos como a fralda nova.






NOTA: Texto que me escolheu para na oficina de interpretação "O Silêncio e a Narrativa" ministrada pela atriz, diretora e preparadora de atores Inês Aranha, promovida pelo Teatro Núcleo Experimental, de ago a out/2014. E viva Clarice!

quinta-feira, 25 de setembro de 2014

Pra Sempre




Mãezukich, Momis, Mãezuca...Sessentona do meu coração. De acordo com o sangue dos Vianas, você acaba de completar, no mínimo, metade da sua vida! E que vida, hein?!

Poderia escrever linhas e linhas sobre suas histórias. Suas batalhas. Vitórias e derrotas, como todas as grandes histórias. Mas prefiro ser mais simples. Falar o que representa pra mim. 

Você é a luz da minha vida. Meu amor. Acho que nossas almas serão mãe e filho por toda a eternidade. Hoje quando acolho o meu pequeno, e quando o vejo ser acolhido por sua mamãe, me lembro de você. O quanto teve cuidado por mim desde pequeno. Não só tratando do meu pé torto, mas também acudindo minha alma. Me fazendo sentir parte desse mundão. 





Sou um filho muito grato. O mais grato desse mundo. Tenho a melhor mãe que poderia ter. Sua alma é repleta de bondade! Não tem espaço para sentimentos ruins. Você é um ser capaz de derramar amores e flores nos seus maiores inimigos (se os tivesse!). Mas uma pessoa assim não tem inimigos, não é?! Quem tenta ser inimigo logo se afasta, é jogado de lado. Pois a sua bondade, o seu amor, são tão grandes, e tomam todo o seu ser, que no fim não sobra espaço para energias ruins. 



Mamãe querida. Senhora do mar, da terra. Ser que respira fundo o ar e que irradia fogo. Você tem o poder de fazer o bem. Você é o bem em carne e osso. São 60 anos vividos assim: de coração aberto para o mundo. Imagino que tenha se machucado por aí. Mas sei que só assim poderia viver: de peito aberto, com o coração na frente de tudo. Não poderia ser diferente já que é a primeira filha de Seu Zeca e da Dona Cecilia, não é?



Que assim seja e sempre. Uma vida repleta de conhecimentos, de vivência. Você se preocupa com sua essência, com sua conexão com nosso universo é sempre me ensinou que assim devo viver. Que nada faria sentido na minha vida se eu não encontrasse tal conexão. É a mulher da natureza, das essências florais, da educação! Tal qual seus grandes autores e mestres, você é atemporal. Sabe por que? Porque amor no coração não tem preço nem prazo de validade. É pra sempre! E quando digo amor, é amor de verdade. Aquele eterno. Por tudo e por todos. Pelo mundo onde vivemos, pelo ar que respiramos. Todos que vivem a sua volta o sentem. E agora tem gente nova no pedaço, né? Que bom pra ele!






E sorte tenho eu, que tive esse amor desde muito muito pequeno. Bem antes de pensar em vir ao mundo. Lá nas profundezas do oceano. Quando eu era um peixe pequenino e mergulhava em busca de uma mamãe eterna. Há tempos. Muito antes do 25 de setembro de anos atrás. Na verdade, nem sei bem dizer. Pois conexão de alma é uma coisa muito profunda que não se explica, né? É pra sempre.

Feliz aniversário!